Sapiência triste

Enquanto você aplaudir poemas medíocres,

Canções de amores comuns e a arte de um povo comum.... Serás feliz. Terás mil dentes para mostrar... A todo o momento,

Uma figura qualquer prenderá a sua atenção,

Um discurso de argumento parcos, irá te convencer.

Acreditarás que um vivente de uma esquina qualquer, tem dons especiais e que sua pregação poderá te salvar... Mas, quando puxares o véu e a clarividência te mostrar , o nu mesmo vestido... então, o teu riso cessará e não terás nenhuma porta de saída, tão pouco alguma te prenderá. Serás livre!

Finalmente a liberdade... Onde habita a tristeza.

Lidia Radke

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O DUELO




Entre as inúmeras histórias que “Seu” Modesto me contou, esta chamou minha atenção por insinuar o quão tênue é a linha que separa a ventura da tragédia e de como o curso de um destino pode descarrilar ante a menor fraqueza.
Havia dois amigos. Mas não se tratava de um simples companheirismo de dois jovens que vivem no mesmo povo. Eles eram amigos... Todos os dias após o trabalho exaustivo na plantação nos sítios agrícolas, sentavam à beira de um lago esverdeado pelas árvores frondosas que o cercavam e lá conversavam sobre seus sonhos, sobre a chuva que deveria aguar as sementes que acabaram de lançar na terra, sobre seus desejos mais íntimos aqueles que somente eles sabiam um do outro e, também falavam das meninas de rostinhos bem feitos mas sem nenhum trato cosmético. Elas os encantavam cada uma à sua maneira, mostravam seus corpos de poucos molde , de pele queimada do sol das lavouras, soltavam seus cabelos ressecados sem cremes nem cores. Tão naturais ! Eram apenas mulheres ... Sem enfeites, sem perfumes e sem domínio de danças. Eram mulheres espontâneas, viviam num povo simples sem sofisticação, sonhando com os rapazes. Ora com o João, ora com o Joaquim, em seguida com o José e certamente também com os dois amigos.
A noite já havia caído, mas os dois amigos ficaram à beira do lago olhando o nascimento da lua que surgia prateada . Seria um desperdício abandonar aquele momento e seguir para suas casas. Então ficaram ali sentados , felizes...falavam da Tina, da Maria Rita... Falavam de todas e desejavam a Tereza, a mais bonita segundo eles. A lua clara mostrava a estrada que seguia para a cidade. E nesta mesma estrada de repente surgiu a luz de um automóvel. Os dois amigos ficaram apreensivos, pois não era de costume visitantes na boca da noite. Quem estaria chegando? Curiosos, eles seguiram até à estrada para recepcionar aquele visitante e em poucos minutos o carro parou diante dos dois. Lentamente o vidro da janela do motorista desceu e um sorriso de deusa cumprimentou-os com voz macia. __Boa noite rapazes ! Que noite linda ! Vocês são daqui? Dizia ela desembarcando do automóvel. O perfume da mulher os deixou extasiados, jamis sentiram tal fragrância,
jamis ouviram uma fala tão sublime e mesmo apenas com a luz da lua, o brilho nos olhos dela...os enfeitiçou.
Quem era ela e o que queria? Foram até ao lago. Ela fumou, bebeu... Eles beberam e
a desejaram com uma paixão quase insuportável.
Ela trazia o tédio do dinheiro, a depressão da droga e todas as mazelas que corroem a alma daqueles que já vivenciaram todas as aventuras que a riqueza pode proporcionar. O sexo com seus amigo e amantes não era mais prazeroso e ela queria mais. Queria ver como um caipira quase virgem reagiria a seus encantos. Sua vida vazia de objetivos e amizades verdadeiras, contribuiu para que imediatamente ela percebesse que entre aqueles dois jovens havia um sentimento de cumplicidade , afeto e lealdade e isso aguçou sua mente pervertida. Sentimentos que certamente ela nunca teve e que mesmo com todo seu poder de beleza e dinheiro, não os compraria. Então se não podia tê-los , melhor destruí-los. Disse então que queria amar os dois, mas que seria impossível e dessa forma propôs que os dois amigos duelassem e o vencedor a teria. O primeiro pensamento dos dois amigos foi de repulsa pela afronta contra sua amizade, mas esses sentimentos nobres se perderam entre o desejo que emergia com força brutal enquanto ela lentamente despia suas roupas. “Vocês me querem? Então lutem!” O plano perverso e provavelmente premeditado, incluiu dois punhais reluzentes que foram entregues como num ritual sangrento. Cegos de desejo os dois aceitaram a arma de morte. A luta durou poucos minutos e um dos dois caiu e até o seu último suspiro balbuciou palavras mescladas a sangue suor e lágrimas. O outro partiu pra cima da mulher nua que nada dizia e seu único movimento foi levar a mão até a boca para tragar o seu cigarro, enquanto o sobrevivente, para chegar ao orgasmo pensava em Tereza. Lídia Radke

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