Sapiência triste

Enquanto você aplaudir poemas medíocres,

Canções de amores comuns e a arte de um povo comum.... Serás feliz. Terás mil dentes para mostrar... A todo o momento,

Uma figura qualquer prenderá a sua atenção,

Um discurso de argumento parcos, irá te convencer.

Acreditarás que um vivente de uma esquina qualquer, tem dons especiais e que sua pregação poderá te salvar... Mas, quando puxares o véu e a clarividência te mostrar , o nu mesmo vestido... então, o teu riso cessará e não terás nenhuma porta de saída, tão pouco alguma te prenderá. Serás livre!

Finalmente a liberdade... Onde habita a tristeza.

Lidia Radke

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O "ressuscitamento" do "seu" Modesto



Certa vez, durante uma discussão sobre administração pública, “Seu”Modesto foi advertido pelo prefeito de sua cidade. Dizia o quase poderoso, que ele deveria ser mais cortês e menos intolerante com as pessoas, porque este comportamento lhe trouxe uma má fama o que consequentemente afastou as pessoas de sua presença. Seu Modesto não almejava ser querido por meio mundo. Mas daí lhe dizer que ninguém gostava dele, lhe trouxe uma pequena preocupação e, neste seu conflito, quanto à sua imagem diante da sua própria comunidade, finalmente ele ficou convencido que o respeito e carinho que nós temos dos que nos cercam só será mensurado no dia de nossa morte. Então ele nunca saberia realmente se gostavam ou não dele. Se o defunto for querido, grande será o número de coroas de flores, maior a multidão que formará o cortejo e mais emocionados os discursos de despedida. Então vamos ver. Pensou ele. Simularei meu próprio velório. Convenceu seus familiares “a largar” a notícia e providenciar todos os preparativos necessários. Caixão, maquiagem de morto, quatro castiçais com velas de sete dias e, em poucas horas, lá na varanda de sua casa estava ele esticado como defunto. Com a velocidade do vento a notícia da sua morte percorreu toda a cidade. O comércio baixou suas portas, bandeiras de luto foram hasteadas na prefeitura, no fórum e na delegacia, as aulas foram suspensas, o prefeito decretou três dias de luto e toda a cidade veio se aglomerar em torno de sua casa. As beatas com terços nas mãos, os vizinhos de olhos vermelhos, as crianças curiosas... e assim cada qual trazia no semblante o lamento pela partida do Seu Modesto. Ele, de olhos e boca cerrada mas os ouvidos bem atentos, ouvia todas as frases ditas em torno do caixão: um homem justo! Um exemplo de vida! Ele fará muita falta! Perdemos um grande amigo … Todos vieram: o padre, os pastores, o delegado, o juiz e até o prefeito... que com a voz embargada proferiu o seguinte discurso ao pé do caixão: “nossa cidade perde um amigo, um homem que ficará para sempre em nossa memória pela grandeza de sua alma, pela amizade que cultivou...” blá, blá, blá... blá, blá, blá....
E era exatamente ele, o desgraçado que num dia anterior lhe havia dito que ele seria um cidadão inconveniente e que não teria nenhuma credibilidade na comunidade e que suas críticas contra a administração do município não seriam ouvidas por ninguém. Que absurdo! E agora estava lá proferindo palavras emocionadas diante de seus amigos. “Seu” Modesto não se conteve e num impulso incontrolável sem se preocupar com as consequências, se levantou do caixão.
A beatas gritaram socooooro , as crianças gritaram aaaai, os jovens uuuuuui, os homens disseram epa, uns desmaiaram, outros pularam o muro e quebraram os tornozelos, teve uma velha que se armou de faca e tentou avançar pra cima do ressuscitado, mas também acabou fugindo, os cachorros latim, os gatos miavam e na confusão o prefeito ficou com uma coroa de flores no pescoço, correndo pela avenida Principal, gritando: sai diabo! E “Seu” Modesto atrás dele, com aquela camisola de defunto quase agarrando o terno do fugitivo, arfando repetidamente a mesma frase: “Fala agora, seu desgraçado, que o povo não gosta de mim, fala!
Ao cair da tarde, tudo se normalizou e em todos os lugares onde havia mais de uma pessoa nada se ouvia além do milagre do ressuscitamento do “Seu” Modesto. Que dia, foi aquele!
Lidia Radke

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