Sapiência triste

Enquanto você aplaudir poemas medíocres,

Canções de amores comuns e a arte de um povo comum.... Serás feliz. Terás mil dentes para mostrar... A todo o momento,

Uma figura qualquer prenderá a sua atenção,

Um discurso de argumento parcos, irá te convencer.

Acreditarás que um vivente de uma esquina qualquer, tem dons especiais e que sua pregação poderá te salvar... Mas, quando puxares o véu e a clarividência te mostrar , o nu mesmo vestido... então, o teu riso cessará e não terás nenhuma porta de saída, tão pouco alguma te prenderá. Serás livre!

Finalmente a liberdade... Onde habita a tristeza.

Lidia Radke

terça-feira, 11 de junho de 2024

 

 

REENCARNAÇÃO – A BRUXA E O SACRIPANTA

 Sou minha trisavó e  na fogueira queimei !

Perdi  a vida, por amor e por ler olhares e a sorte!

A batina não escondeu tua paixão, meu rei.

E o teu sacrilégio, nos condenou à morte.

 

Voltamos e  reconheci, os teus olhos, meu rei.

Agora, nesse tempo iluminado, eu te amo mais

E para sempre terei teu olhar. Eu sei.

Pois ainda pratico as clarividências ancestrais .

 

Não há mais celibato nesse tempo.

Amemos nos, sem hábitos e sem batinas.

Na grama, na cama ...No pensamento

E atrás do muro, daquela esquina.

 

Não fui  bruxa, nem fui santa,

Santo Oficio, sujo manto !

Condenou  um padre por me amar.

Que hoje é ateu e eu o amo tanto !!!

Lídia Radke. -

quinta-feira, 1 de junho de 2023

 

Em homenagem ao Rio Doce - Um rio que foi contaminado pelo rompimento de uma Barragem, na cidade de Mariana em Minas Gerais.


PERDÃO, RIO DOCE

Perdoa rio Doce, perdoa!

Perdoa tamanha traição,

Perdoa meu doce Riozinho

Perdoa Rio Doce irmão.


Corrias, servindo sozinho

Água pra todos os bichos

chamavas as chuvas pra plantas

lavavas as bostas e os lixos


Perdoa Rio Doce ao homo

O homo não vive pelado

O sapiens precisa do cromo

e outros metais pesados


Aceita Rio doce, aceita

A lágrima e a dor do meu peito

Quem sabe uma prece ou os gênios

não limpem um dia, o teu leito

quem sabe em outros milênios

quem sabe, se tem algum jeito.


Lídia Radke



terça-feira, 30 de maio de 2023

 

OS DOÍDOS E DOIDOS - DA NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA
Coisas doídas e doidas.
Comprar carne no carnê
e trocar o coco por cocô.
Encontrar um cágado cagado
Quando a falsa médica medica.
Quando a babá baba.
Quando a secretária quebra a secretaria.
Teimar que romã só dá em Roma.
Que seus pais não têm país.
Usar maiô só em maio.

Achar que uma sabiá não é sábia.

Discriminar o Pelé pela cor da pele.
Vender camelo no camelô.
Jogar no rio lixo que a fábrica fabrica.

Quando eu não valido o que é válido.
Que se amem só depois do amém.
Numa sexta sem direito à sesta fui trançar uma cesta.
A alta taxa sobre a tacha é o imposto.

O servo que maltrata o cervo.
Mesmo na cerração houve serração de árvores.
Não houve concerto, instrumentos estão no conserto.
Ao empossar, o vereador viu empoçar o palanque com água da chuva.
A pessoa mais vivida é mais vívida.
Ela bota a bota e calça a calça e sai.

E, assim a profetisa profetiza

… Eu não publico isso ao meu público….

– Lídia Radke



 

DISTÂNCIA!

Esperemos e olhemos o correr das águas?

Que só levam o que é leve

e vão as alegrias e ficaremos com as mágoas?

Tal qual as pedras, que o rio descreve.


O tempo não espera a nossa coragem.

Ele nos chama, indica e corre.

Nos cede suave e breve imagem,

que sorri, suspira e depois morre.


Oh, tempo e seus imuteis segundos

Enriqueceriam só com a tua presença.

Depois de você, me perdi no mundo

e sem você, prefiro a sentença!


Lídia Radke – 14 de Maio de 2023






quinta-feira, 25 de março de 2021

 

POEMA DE ESQUERDA


Dia e noite, e nas madrugadas de lua e frio,

paro, quando o cansaço do dia me vence

e sigo quando o sono fugiu…

e raia o sol e luto a luta, que me pertence.



Nascer viver e morrer deve ser o destino

Mas, ha os que nascem e têm uma longa morte

Sem bandeira, sem pátria e sem hino

A minha direita, a minha esquerda, no sul e no norte.



Com medo dos famintos, com seu ódio e fel

com medo, que lhes tomem as comidas e tesouros seus

Lhes disseram, que a fome e a dor abre as portas do céu

que devem orar, jejuar e serão amados por Deus.



E o pensamento da noite longa, sem efeito

só me induz de sair de mim e sentir o alheio.

Todos eles são da minha espécie têm minha fala, o meu jeito

Mas, agonizam a margem, aí que feio, ai que feio!



Maldito Planeta, criadouro de seres maus ?

Te quero azul, com paz justiça. sem exclusão !

Sem escola e oração, nos espreitarão com armas e paus

arrancando nos a vida, para comer o nosso pão.

Lídia Radke - 2018





terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Fernando Pessoa criou vários heterônimos que são personagens poéticas com identidade própria e estes heterônimos também eram compositores.
 Os mais conhecidos foram: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Todos estes, são Pessoa, a mesma pessoa. Fernando Pessoa.

E eis o que ele disse sobre seus heterônimos:
 “Com uma falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito”
“Tudo vale a pena se a alma não for pequena” - Fernando Pessoa.

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio. 
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. 
(Enlacemos as mãos.) 
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida 
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, 
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, 
Mais longe que os deuses. 
 Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. 
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. 
Mais vale saber passar silenciosamente 
E sem desassossegos grandes. 

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, 
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, 
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, 
E sempre iria ter ao mar. 
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, 
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, 
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro. 

Ouvindo correr o rio e vendo-o. 
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as 
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, 
Pagãos inocentes da decadência. 
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois 
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, 
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos 
Nem fomos mais do que crianças. 

E se (você morrer) antes do que eu e levares o bolo
Ao barqueiro sombrio.                                                  
    Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. 
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio, 
Pagã triste e com flores no regaço.

 – Ricardo Reis – Heterônimo de Fernando Pessoa




Vejamos o que Lídia poderia dizer a Ricardo


             Resposta de Lídia
Ricardo.
Porque você não me enlaçou na beira do rio?
Estávamos às sós.
Quisera que a tua lembrança me ardesse e me ferisse
Do que não tê-la.
Por que não enlaçamos as mãos... Os corpos?
O rio passou e eu... Triste pagã com flores no colo...
Oh! Ricardo, não gostei sentar contigo à beira do rio
Sem sangue que pulsasse
E sem desassossegos
De olhos parados na água corrente
Qual dois doentes!  A que me convidastes!
És um Pagão decadente. Nunca mais me convide a sentar-me contigo à beira do rio.
És um homem de alma pequena e por isso com medo.
Eu, Lídia. Prefiro o Fernando que tem a alma grande e sabe que tudo vale à pena.
                                              Lídia Radke




            


sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Ladrão



                  O Ladrão
Seis meses após receber o diploma, Adélia alugou uma sala naquele edifico alto e gelado. Dentista, advogados, psicólogos e até detetives montavam ali seus escritórios de iniciantes, na sonhada profissão. Adélia também. Naquele momento ela estava navegando em redes sociais à espera de pacientes... E a porta se abre!  Ai, meu Deus!
Não houve tempo para tentar entender o que estava acontecendo. O homem armado tapa sua boca e lhe sussurra desesperado que ela deveria ficar em silêncio, manda-a sentar enquanto ele se mete embaixo da mesa estilo antigo, daquelas fechadas que permitiriam um sério chefe sentar-se de paletó e cuecas sem ninguém perceber isso.
Em poucos segundos, novamente a porta se abre e os policiais armados perguntam se estava tudo bem. Adélia disfarça como atriz: balança positivamente a cabeça, com expressão indagadora sobre o que estaria acontecendo. Colocou uma ponta de temor nos olhos, quando o policial lhe disse que caçavam um ladrão.
Cinquenta mil dólares seria o pagamento para esconder o ladrão até que a poeira abaixasse. O dito era bonito e sedutor e, regenerado com duzentos mil dólares! ... Poderia ser um partido perfeito! Então valeria a pena tentar o processo regenerador. Nada tão difícil. Promessas de futuro, descrição sobre a vida na prisão, o risco de morte, tendo como aliada a bíblia e a sedução feminina que embora pouco desenvolvida... Mas teria que dar certo. “As pessoas não são más, elas não tiveram chance e acabam se perdendo por caminhos perversos...” Pensava ela.
Durante uma semana, Adélia levou comida, improvisou um canto com colchonete, cobertas, almofadas, escova de dente... Cuidava do seu segredo com pavor, paixão e esperança. Ela  garantiu ao fugitivo que não haveria nenhum perigo, que ele poderia até levar a mala com o dinheiro e caminhar de cabeça erguida, cumprimentar o porteiro e caso ele quisesse, poderiam sair de braços dados, seria mais perfeito ainda! Tudo estava calmo, mesmo assim, o ladrão decidiu por mais uma noite e então partiriam. Como despedida do seu refúgio, ele pediu um vinho Romanée Conti e uma tábua de frios.
Durante duas semanas ela aconselhou, orou e fez sexo intenso. O ladrão se transformou em um homem encantador, prometeu amá-la para sempre, disse que deveria fechar seu escritório e ir com ele para a Argentina na região de Mendoza, onde comprariam um vinhedo aos pés da Cordilheira dos Andes e lá tocariam uma vinícola.  Todas as tardes sentariam em um banco de pedra para apreciar o por do sol ao sabor de um vinho especial.
Com o coração palpitando ela chegou ofegante com o peso de duas malas o vinho e os queijos para compor a tábua.
Abriu a porta tomada de uma emoção que jamais sentira na vida, mas imediatamente sentiu o frio do vazio! O seu escritório estava silencioso com uma atmosfera de adeus para sempre. O seu delicioso ladrão não estava mais lá, ela ainda correu para o banheiro com um fio de esperança, mas apenas o ruído silencioso dos pingos d’águas que caíam do chuveiro recém-desligado, o cheiro do seu shampoo e a toalha molhada no chão, sobre a mesa antiga um bilhete dizia:  “Como um bom ladrão, fui obrigado a roubar os cinquenta mil dólares que lhe paguei pela proteção. Sinto apenas não ter apreciado o vinho e os queijos e não posso dizer que ficará para uma próxima vez porque não haverá a próxima vez. Adeus”
Adélia desapareceu. Um conhecido a teria visto pela última vez no aeroporto, comprando uma passagem para Mendoza.
Lídia Radke