Esmeralda, minha joia preciosa!” Talvez fora essa a frase que camuflou a armadilha na qual Esmeralda caiu e nela agonizava há cinco anos. Diante do espelho com os dedos trêmulos, ela espalhava a maquiagem sobre as manchas escuras em torno do queixo e do olho direito. Em meio a sua dor e seu ódio, uma felicidade perigosa feito navalha de aço brincava e atiçava seus sentidos trazendo de volta o brilho nos olhos. Era o feirante. Homem alardioso de fala alta, mas que emudecia quando Esmeralda lhe entregava legumes para a pesagem. Ela pensava nele, enquanto carregava o jugo pesado do seu casamento com um daqueles homens que estremecem diante da mulher e então ativam o seu gene primitivo da força bruta. Bruto era o seu marido. Talvez o feirante também embruteceria quando tivesse mulher. Quem poderia saber ... O feirante nunca via os legumes que ela escolhia somente a aliança na sua mão esquerda. Talvez ele desejasse também dar uma aliança para Esmeralda e então embrutecer, ou talvez mantivesse sua polidez eternamente, talvez... Esmeralda estava pronta para ir à feira enquanto seu marido abria uma escada que daria até ao teto onde alcançava a fiação elétrica que necessitava de reparos naquele sábado de feira. E, quando ela cruzava a porta de saída recebeu a ordem do marido para que desligasse o disjuntor da eletricidade de uma escala de 200 volts. A aparelhagem ficava do lado de fora da casa. O coração dela disparou e uma oportunidade talvez única para a sua liberdade e vingança, estava sorrindo diante de suas mãos. Não havia tempo para premeditação, não havia tempo para reflexões morais ou religiosas, não havia tempo para escolha entre o certo e errado, só havia alguns segundo para tomada de decisão.
Ela abriu a caixa de registro, desligou o disjuntor, esperou alguns segundos e o ligou novamente e como uma ação de controle remoto ouviu-se no interior da casa o impacto da escada caindo. De passos acelerados naquele sábado, ela seguia cabisbaixa para a feira... Comprou abóboras enormes e pesadas e com a coragem que antes não tivera, pediu ao feirante que a ajudasse a levar as compras até sua casa. O homem perplexo acomodou as abóboras na caixa frontal de sua bicicleta e os dois seguiam lado a lado, em silêncio, vez ou outra ele se desiquilibrava sobre o veículo, pelo peso das abóboras e por ter que pedalar lento para acompanhar os passos de Esmeralda. Quando avistaram o tumulto de vizinhos, ambulância e policia em frente à casa, ela encostou seu braço no feirante e sussurrou. “acho que fiquei viúva”
LIDIA RADKE
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