Sapiência triste

Enquanto você aplaudir poemas medíocres,

Canções de amores comuns e a arte de um povo comum.... Serás feliz. Terás mil dentes para mostrar... A todo o momento,

Uma figura qualquer prenderá a sua atenção,

Um discurso de argumento parcos, irá te convencer.

Acreditarás que um vivente de uma esquina qualquer, tem dons especiais e que sua pregação poderá te salvar... Mas, quando puxares o véu e a clarividência te mostrar , o nu mesmo vestido... então, o teu riso cessará e não terás nenhuma porta de saída, tão pouco alguma te prenderá. Serás livre!

Finalmente a liberdade... Onde habita a tristeza.

Lidia Radke

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Ladrão



                  O Ladrão
Seis meses após receber o diploma, Adélia alugou uma sala naquele edifico alto e gelado. Dentista, advogados, psicólogos e até detetives montavam ali seus escritórios de iniciantes, na sonhada profissão. Adélia também. Naquele momento ela estava navegando em redes sociais à espera de pacientes... E a porta se abre!  Ai, meu Deus!
Não houve tempo para tentar entender o que estava acontecendo. O homem armado tapa sua boca e lhe sussurra desesperado que ela deveria ficar em silêncio, manda-a sentar enquanto ele se mete embaixo da mesa estilo antigo, daquelas fechadas que permitiriam um sério chefe sentar-se de paletó e cuecas sem ninguém perceber isso.
Em poucos segundos, novamente a porta se abre e os policiais armados perguntam se estava tudo bem. Adélia disfarça como atriz: balança positivamente a cabeça, com expressão indagadora sobre o que estaria acontecendo. Colocou uma ponta de temor nos olhos, quando o policial lhe disse que caçavam um ladrão.
Cinquenta mil dólares seria o pagamento para esconder o ladrão até que a poeira abaixasse. O dito era bonito e sedutor e, regenerado com duzentos mil dólares! ... Poderia ser um partido perfeito! Então valeria a pena tentar o processo regenerador. Nada tão difícil. Promessas de futuro, descrição sobre a vida na prisão, o risco de morte, tendo como aliada a bíblia e a sedução feminina que embora pouco desenvolvida... Mas teria que dar certo. “As pessoas não são más, elas não tiveram chance e acabam se perdendo por caminhos perversos...” Pensava ela.
Durante uma semana, Adélia levou comida, improvisou um canto com colchonete, cobertas, almofadas, escova de dente... Cuidava do seu segredo com pavor, paixão e esperança. Ela  garantiu ao fugitivo que não haveria nenhum perigo, que ele poderia até levar a mala com o dinheiro e caminhar de cabeça erguida, cumprimentar o porteiro e caso ele quisesse, poderiam sair de braços dados, seria mais perfeito ainda! Tudo estava calmo, mesmo assim, o ladrão decidiu por mais uma noite e então partiriam. Como despedida do seu refúgio, ele pediu um vinho Romanée Conti e uma tábua de frios.
Durante duas semanas ela aconselhou, orou e fez sexo intenso. O ladrão se transformou em um homem encantador, prometeu amá-la para sempre, disse que deveria fechar seu escritório e ir com ele para a Argentina na região de Mendoza, onde comprariam um vinhedo aos pés da Cordilheira dos Andes e lá tocariam uma vinícola.  Todas as tardes sentariam em um banco de pedra para apreciar o por do sol ao sabor de um vinho especial.
Com o coração palpitando ela chegou ofegante com o peso de duas malas o vinho e os queijos para compor a tábua.
Abriu a porta tomada de uma emoção que jamais sentira na vida, mas imediatamente sentiu o frio do vazio! O seu escritório estava silencioso com uma atmosfera de adeus para sempre. O seu delicioso ladrão não estava mais lá, ela ainda correu para o banheiro com um fio de esperança, mas apenas o ruído silencioso dos pingos d’águas que caíam do chuveiro recém-desligado, o cheiro do seu shampoo e a toalha molhada no chão, sobre a mesa antiga um bilhete dizia:  “Como um bom ladrão, fui obrigado a roubar os cinquenta mil dólares que lhe paguei pela proteção. Sinto apenas não ter apreciado o vinho e os queijos e não posso dizer que ficará para uma próxima vez porque não haverá a próxima vez. Adeus”
Adélia desapareceu. Um conhecido a teria visto pela última vez no aeroporto, comprando uma passagem para Mendoza.
Lídia Radke

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