O
Ladrão
Seis meses após receber o diploma, Adélia alugou uma sala
naquele edifico alto e gelado. Dentista, advogados, psicólogos e até detetives
montavam ali seus escritórios de iniciantes, na sonhada profissão. Adélia
também. Naquele momento ela estava navegando em redes sociais à espera de
pacientes... E a porta se abre! Ai, meu
Deus!
Não houve tempo para tentar entender o que estava
acontecendo. O homem armado tapa sua boca e lhe sussurra desesperado que ela
deveria ficar em silêncio, manda-a sentar enquanto ele se mete embaixo da mesa
estilo antigo, daquelas fechadas que permitiriam um sério chefe sentar-se de
paletó e cuecas sem ninguém perceber isso.
Em poucos segundos, novamente a porta se abre e os policiais
armados perguntam se estava tudo bem. Adélia disfarça como atriz: balança
positivamente a cabeça, com expressão indagadora sobre o que estaria
acontecendo. Colocou uma ponta de temor nos olhos, quando o policial lhe disse
que caçavam um ladrão.
Cinquenta mil dólares seria o pagamento para esconder o
ladrão até que a poeira abaixasse. O dito era bonito e sedutor e, regenerado
com duzentos mil dólares! ... Poderia ser um partido perfeito! Então valeria a
pena tentar o processo regenerador. Nada tão difícil. Promessas de futuro,
descrição sobre a vida na prisão, o risco de morte, tendo como aliada a bíblia
e a sedução feminina que embora pouco desenvolvida... Mas teria que dar certo. “As
pessoas não são más, elas não tiveram chance e acabam se perdendo por caminhos
perversos...” Pensava ela.
Durante uma semana, Adélia levou comida, improvisou um canto
com colchonete, cobertas, almofadas, escova de dente... Cuidava do seu segredo
com pavor, paixão e esperança. Ela
garantiu ao fugitivo que não haveria nenhum perigo, que ele poderia até
levar a mala com o dinheiro e caminhar de cabeça erguida, cumprimentar o
porteiro e caso ele quisesse, poderiam sair de braços dados, seria mais
perfeito ainda! Tudo estava calmo, mesmo assim, o ladrão decidiu por mais uma
noite e então partiriam. Como despedida do seu refúgio, ele pediu um vinho
Romanée Conti e uma tábua de frios.
Durante duas semanas ela aconselhou, orou e fez sexo intenso.
O ladrão se transformou em um homem encantador, prometeu amá-la para sempre,
disse que deveria fechar seu escritório e ir com ele para a Argentina na região
de Mendoza, onde comprariam um vinhedo aos pés da Cordilheira dos Andes e lá
tocariam uma vinícola. Todas as tardes sentariam
em um banco de pedra para apreciar o por do sol ao sabor de um vinho especial.
Com o coração palpitando ela chegou ofegante com o peso de
duas malas o vinho e os queijos para compor a tábua.
Abriu a porta tomada de uma emoção que jamais sentira na
vida, mas imediatamente sentiu o frio do vazio! O seu escritório estava
silencioso com uma atmosfera de adeus para sempre. O seu delicioso ladrão não
estava mais lá, ela ainda correu para o banheiro com um fio de esperança, mas
apenas o ruído silencioso dos pingos d’águas que caíam do chuveiro recém-desligado,
o cheiro do seu shampoo e a toalha molhada no chão, sobre a mesa antiga um
bilhete dizia: “Como um bom ladrão, fui
obrigado a roubar os cinquenta mil dólares que lhe paguei pela proteção. Sinto
apenas não ter apreciado o vinho e os queijos e não posso dizer que ficará para
uma próxima vez porque não haverá a próxima vez. Adeus”
Adélia desapareceu. Um conhecido a teria visto pela última
vez no aeroporto, comprando uma passagem para Mendoza.
Lídia Radke
